Emoções: herdadas ou adquiridas?

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As emoções são difíceis de definir. No entanto, elas orientam, de forma muito significativa, o nosso dia-a-dia. Quando se fala de emoções as confusões costumam ser constantes, nomeadamente quando se pretende fazer a distinção entre o que são as emoções e o que é o humor, a paixão, o impulso e por aí adiante. No entanto, é consensual que as relações afetivas são proeminentes à natureza humana e sem a sua presença o nosso organismo não seria mais do que uma espécie de robot. Se retirássemos as componentes fisiológicas de uma emoção apenas restaria uma perceção cognitiva.

As emoções resultam de uma herança evolutiva?

Para compreender as emoções é necessário ter em conta vários aspetos de carácter social, genético, hereditário, fisiológico, cognitivo, entre outros. Uma das perspetivas acerca da compreensão das emoções, a perspetiva das emoções básicas (universais), move um grande conjunto de investigadores. Mas, a discussão acerca do número de emoções básicas existentes já se verificava muito antes de se realizarem estudos empíricos para a sua verificação. Já entre o século III e XI, filósofos Hindus consideravam existir oito emoções básicas, que eram: amor; bom humor; tristeza; raiva; medo; perseverança; repugnância; e espanto. Esta discussão prolongou-se com importantes filósofos como René Descartes e Baruch Spinoza (Plutchik, 2003, p. 69).

Mas, afinal, o que são as emoções básicas? As emoções básicas são um conjunto de emoções que são consideradas fundamentais e todas as outras surgem como resultado da combinação entre duas, ou mais, dessas emoções, ou seja, as emoções básicas dão origem às restantes emoções, consideradas secundárias.

Um dos principais percursores desta perspetiva é Paul Ekman. Este autor considera que a principal função das emoções é a mobilização dos organismos para lidarem rapidamente com importantes encontros interpessoais, de acordo com os tipos de atividade que foram adaptativos no passado da espécie (Ekman, 1999, p. 46). Portanto, as emoções básicas têm uma função particularmente adaptativa para preparar encontros entre organismos, entre pessoas ou entre pessoas e animais, ou seja, têm um valor adaptativo nas tarefas fundamentais da vida (tarefas de sobrevivência) (Ekman, 1999, p. 46).

Ekman considera que existem 6 emoções básicas, que são: o medo, a raiva, a tristeza, a felicidade, a repugnância e a surpresa/espanto (Plutchik, 2003, p. 73); e que estas emoções diferem umas das outras de uma forma bastante acentuada em termos de apreciação dos eventos antecedentes, da (provável) resposta comportamental, de fisiologia e outras características, não sendo meramente uma questão de intensidade do prazer ou desprazer, quer as emoções sejam positivas ou negativas (Ekman, 1999, p. 45).

Ekman considera que é possível distinguir as emoções básicas das restantes emoções visto que as básicas possuem sinais universais distintos, por exemplo, ao nível do funcionamento do sistema nervoso autónomo. Essas diferenças refletem a preparação do indivíduo para realizar diferentes ações. Por exemplo, fugir de um predador pode considerar-se uma ação adaptativa ao medo, consistente com o facto de neste caso o sangue no corpo humano se concentrar prioritariamente nos músculos esqueléticos para permitir a fuga (Ekman, 1999, p. 50). Isto é consistente com um estudo, realizado pelo mesmo autor, em que se verificou que o medo provoca, tal como a raiva, um aumento do batimento cardíaco, mas enquanto que na raiva a pressão sanguínea é superior nas mãos (preparando o indivíduo para a luta), no medo a temperatura da pele diminui em função de uma maior pressão sanguínea nos músculos esqueléticos preparando o indivíduo para fugir (Ekman, Levensson, & Friesen, 1983).

De um modo geral, e resumidamente, apesar de as emoções básicas estarem relacionadas com um conjunto considerável de fenómenos afetivos, elas possuem um conjunto de características que as distinguem desses fenómenos: possuem sinais universais distintos; correspondem a diferentes alterações fisiológicas; possuem um mecanismo de apreciação/avaliação automático; existe um conjunto de estímulos antecedentes distintos; desenvolvem-se de formas distintas; estão presentes em outros animais (primatas) de forma similar aos humanos; são de rápida ativação e de curta duração; ocorrem de forma espontânea; implicam uma experiência subjetiva, pensamentos e memórias distintos (Ekman, 1999, p. 56).

Estas características não podem ser entendidas como a linha inquebrável para fazer a divisão entre as emoções e os restantes fenómenos afetivos. No entanto, a característica que parece ser realmente única nas emoções básicas é que elas ocorrem quando estamos a lidar com tarefas fundamentais do dia-a-dia, tendo um papel adaptativo ao longo da evolução filogenética da nossa espécie (Ekman, 1999, p. 56). Todas as restantes emoções são o resultado da combinação de diferentes emoções básicas (por exemplo, a combinação entre o medo e a raiva dá origem à inveja), podendo ser visto, em analogia, como a tabela periódica dos elementos usada na química, onde a combinação entre os elementos básicos resulta nos restantes elementos presentes na natureza (Plutchik, 2003, p. 74). Ou, de forma mais simples, pode olhar-se para o que acontece com as cores….

Então, qual é o papel do contexto social e cultural?

Para além de todas as manifestações fisiológicas, o ser humano produz um conjunto de comportamentos associados às emoções. Ora, esses comportamentos variam de sociedade para sociedade e são o resultado de um conjunto de respostas prescritas socialmente para serem desempenhadas por uma pessoa numa determinada situação (Averill, 1980, p. 308). Portanto, a sociedade fornece-nos um conjunto de respostas, organizadas num sistema comportamental coerente, para reagirmos perante uma determinada situação. Desta forma, no dia-a-dia, nós dizemos, por exemplo, que uma criança está a fazer birra porque ela se comporta de determinada maneira (responde de forma pouco agradável, opõe-se ao que lhe é pedido, faz uma expressão facial com os cantos da boca descidos, cerra as sobrancelhas, etc.) socialmente prescrita e que os restantes membros que com ela lidam percebem que está a fazer birra. Ou seja, a criança está a desempenhar o seu papel social de criança birrenta. Outro bom exemplo de que a sociedade nos fornece um conjunto de respostas para determinados estímulos é a celebre frase “um homem não chora”. Há aqui uma regulação comportamental que leva a que, mesmo que a criança “nasça e cresça a chorar” para obter algo que deseja, à medida que se torna adulto os preconceitos e estereótipos sociais moldam a sua resposta emocional. O mesmo acontece quando se está doente. O papel de doente desempenhado pelo indivíduo vai determinar, em parte, o diagnóstico do médico. Isto é particularmente verdade quando nos referimos a lesões cerebrais ou doenças de foro mental onde o comportamento demonstrado pelo sujeito assume um papel relevante na determinação da patologia presente (Averill, 1980, p. 309).

Não podemos, no entanto, deixar de ter em conta a interpretação individual dos estímulos antecedentes, isto porque os papéis sociais requerem uma interpretação do indivíduo para serem desempenhados. Como é sabido, as emoções necessitam de objetos para se fazer sentir, é necessário que algo as desencadeie. Ora, o objeto responsável por desencadear uma determinada emoção depende da interpretação individual da situação. Essas interpretações refletem aquilo que é desejável e aquilo que é indesejável para o sujeito (Averill, 1980, p. 310). Também não é difícil perceber que o que é desejável ou indesejável é, em grande parte, determinado pela sociedade. Até mesmo em casos em que a vida está em jogo. Basta ter em conta o valor que é dado à vida humana nas sociedades ocidentais e, por contraponto, verificar o que acontece nas sociedades muçulmanas, constatando-se que a vida não tem o mesmo valor que tem para nós. Será que um bombista suicida teme pela sua vida quanto se prepara para se fazer explodir? Neste caso, até mesmo a questão da sobrevivência é ultrapassada pelas normas e crenças sociais e religiosas e não há nenhuma emoção que, mesmo depois de nos ter ajudado a garantir a sobrevivência durante os nossos antepassados (como o medo), seja superior às imposições do grupo. Para além disto, também Besnier (1995, p. 225) ao estudar a tribo Nukulaelae, na qual, por exemplo, a raiva é moralmente errada, verificou a influência grupal na determinação das emoções. Nesta tribo, as emoções são construídas socialmente e dependentes da interação com os outros para se desenvolverem. Os membros da tribo usam um conjunto de técnicas específicas para induzir emoções nos membros, que são submetidos ao ritual gossip (Besnier, 1995, p. 236, 237). Num outro estudo, realizado por Ekman, a expressão facial de estudantes japoneses era diferente, quando eles viam sozinhos filmes que apresentavam corpos a serem mutilados, de quando estavam acompanhados por outro indivíduo, enquanto que os estudantes americanos se expressavam da mesma forma (Ekman, 1993; cit. por Plutchik, 2003). Isto demonstra que as diferentes culturas impingem diferentes modos de responder às emoções. Daí, a síndrome social ou papel social transitório fazer sentido enquanto um conjunto de respostas socialmente aprendidas para serem desempenhadas por um indivíduo numa determinada situação.

Outro aspeto muito importante em relação à sociedade, e complementar às duas teorias anteriormente referidas, é o facto de as emoções secundárias, derivadas da combinação entre duas ou mais das emoções básicas, serem determinadas pela interação social. Emoções como a vergonha, o ciúme ou a culpa surgem a partir do 3° ano de vida, quando a criança adquire a noção cognitiva de si própria em relação às outras pessoas (Abreu, 2003). As brincadeiras interativas como “fingir” permitem à criança formar a imagem das outras pessoas e compreender que elas têm desejos, sentimentos e crenças que podem ser diferentes dos dela. A partir daqui, o sujeito processa não só as suas emoções e sentimentos, mas também as emoções e sentimentos de outras pessoas significativas, ajudando a criança a formar a sua identidade pessoal. Por exemplo, a vergonha surge quando outras pessoas invadem a privacidade do sujeito, enquanto que a culpa surge, por exemplo, quando o sujeito invade a intimidade de outras pessoas significativas. A não ser que estejam presentes condições de carência extrema ou de isolamento, as emoções nos adultos são menos explícitas, mas tornam-se mais complexas e interativas. Toda a vida emocional amadurecida está ligada às relações interpessoais, uma vez que todas as necessidades humanas são satisfeitas pela cooperação, ou luta, com outras pessoas (Abreu, 2003).

Em suma, possuímos um conjunto de emoções básicas, tidas como inatas (tal como as suas expressões) e que tiveram um papel determinante na evolução da espécie. Estas emoções possuem um conjunto de características que as distinguem não só umas das outras, como também de outros fenómenos afetivos. Quando combinadas, podem dar origem a emoções secundárias que se desenvolvem a partir da interação social quando a criança assume a noção de si enquanto ser distinto e com vontades, desejos e sentimentos que podem diferir das outras pessoas.

As emoções são essenciais à existência e um agente muito importante a atuar sobre o nosso dia-a-dia, determinando de forma muito significativa as nossas tomadas de decisão e resolução de problemas. Portanto, assumir e utilizar as nossas emoções de forma positiva na vivência quotidiana é, sem dúvida, uma tarefa interessante e uma mais-valia para uma vida plena e para o alcance dos nossos objetivos.

Referências Bibliográficas

Abreu, J. (2003). As emoções como comunicação/narrativas. Conferência de encerramento do 17° congresso europeu da European Federation of Psychology Students’ Association. Porto.

Averill, J. R. (1980). A constructivist view of emotion. In R. Plutchik & H. Kellerman (Eds.), Emotion: Theory, research and experience: Theories of emotion (pp. 305-339). New York: Academic Press.

Besnier, N. (1995). The politics of emotion in Nukulaelae gossip. In J. Russell (Ed.), Everyday conceptions of emotion (pp. 221 – 240). Dordrecht, The Netherlands: Kluwer Academic Publishers.

Ekman, P. (1999). Handbook of cognition and emotion. Sussex, U.K.: John Wiley & Son, Ltd.

Ekman, P., Levenson, R., & Friesen, W. (1983). Autonomic nervous system activity distinguishes among emotions. Time, 221, 1208 – 1210.

Plutchik, R. (2003). Emotions and life: Perspectives from psychology, biology, and evolution. Washington: American Psychological Association.

Adelino Pereira

(psicólogo)

 

 

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